O ano de 2024 será lembrado como um marco na história climática do planeta. Pela primeira vez, a temperatura média global do ar excedeu 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, um limite crítico antecipado pelas mudanças climáticas. Esse aumento significativo nas temperaturas teve repercussões profundas em diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil. Esse e outros dados foram compilados no primeiro documento que integra o relatório Brasil em Transformação: O Impacto da Crise Climática, coordenado pelo professor Ronaldo Adriano Christofoletti, do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar/Unifesp) - Campus Baixada Santista, e pela doutora em Ecologia Aline Sbizera Martinez.
A principal fonte utilizada foi a base de dados dos desastres climáticos no Brasil, que a Defesa Civil disponibiliza a partir do Portal da Transparência. Para Christofoletti, é extremamente importante ter uma ciência aberta, com dados abertos de todos os monitoramentos realizados, tanto sociais, ambientais quanto econômicos. “Ao termos acesso fácil aos dados, podemos passar pela etapa científica e fazer com que a população entenda melhor essa parte da ciência”, ressalta.
Além de sua importância, o acesso a tudo isso leva a um conceito relativamente novo na área da pesquisa ambiental: a ansiedade climática. “O conceito da ansiedade climática se relaciona ao fato de que cada vez mais pessoas, ao terem acesso a essa informação e ao realmente entenderem a gravidade das mudanças que estão ocorrendo e para onde elas vão, passam a ter quadros de ansiedade, pois compreendem o impacto, o perigo e a gravidade desse processo todo”, explica.
O professor da Unifesp comenta que essa infodemia (epidemia da informação), o acesso múltiplo à informação, a dependência das mídias sociais e a necessidade de respostas rápidas geram cada vez mais ansiedade na população. “É preciso começar a olhar a ansiedade climática como um potencial de transformação de comportamento e de ações que possam ajudar a mitigar os impactos da mudança do clima”.
Eventos extremos
O aumento das temperaturas globais intensificou a frequência e a severidade de eventos climáticos extremos no Brasil. Entre 1991 e 2023, 5117 municípios brasileiros reportaram danos ambientais, o que representa 92% do total de cidades no país. Entre os principais desastres registrados, estão a seca (50% dos registros), inundações, enxurradas e enchentes (27%) e tempestades (19%). Nessa contabilidade, não estão as maiores inundações já registradas no Rio Grande do Sul, entre abril e maio de 2024, que afetaram milhões de pessoas e resultaram em inúmeras mortes.
“Quando a gente fala das pessoas que perderam as suas casas, por exemplo, no Rio Grande do Sul (ou em todas as outras tragédias), não é só o bem material que elas perderam; perdeu-se sua história de vida, todas as suas roupas, as suas fotos, as fotos dos pais falecidos ou do nascimento dos filhos”. Para o professor, essa é uma perda indireta e muito maior do que os números mostram, que não tem sido quantificada pelos governos nem pela ciência.
Não há uma correlação direta entre os dados ambientais e ansiedade climática, até por não haver uma base de dados claras sobre o tema, mas a ciência tem mostrado que a profusão de notícias sobre mudanças do clima e o testemunho constante de desastres cada vez mais frequentes podem ser gatilhos que relacionam os dois temas.
“Temos que entender como a ciência ambiental e as ciências da saúde se integram, para poder lidar com a sociedade, inclusive do ponto de vista da saúde, porque não falar sobre o tema ou não entender o que realmente está acontecendo com o clima não é uma opção”, diz o docente.
Assim como uma pessoa, ao ser diagnosticada com transtorno de ansiedade, precisa mapear a origem do problema, isso também terá que ocorrer com a ansiedade climática. “As pessoas vão entender que não são responsáveis pela mudança do clima sozinha, mas que fazem parte de uma sociedade que pode ajudar na mudança como um todo”, pontua.
Mudanças, inclusive, que também são necessárias quando se olha para as consequências econômicas desses desastres naturais. Só nos primeiros quatro anos desta década (2020-2023), os prejuízos no Brasil já somam R$ 188,7 bilhões, o que representa 80% do total registrado em toda a década anterior (2010-2019) e corresponde a 0,5% do PIB nacional acumulado nos últimos quatro anos. A taxa média de aumento dos prejuízos entre 1995 e 2023 foi de R$165 milhões por ano, isso sem contar os dados de 2024, que incluem os impactos do desastre no Rio Grande do Sul e das queimadas em diversos estados.
Alerta
Como cientista, Christofoletti considera que a sociedade chegou a um ponto bastante crítico, que merece atenção. “O fato de 2023 e 2024 terem sido dois anos consecutivos com recordes de temperatura do ar, da atmosfera, do oceano e de degelo na Antártica é muito grave.” Ele aponta o aumento de 1,5°C na temperatura média anual global, um número que vinha sendo alertado pelos cientistas como um ponto muito próximo do não retorno ou em que se começaria a ver desastres ambientais com mais frequência e intensidade.
“Só que atingir esse 1,5% acima dos níveis pré-industriais era esperado para a próxima década, em torno de 2033. Nós adiantamos em dez anos o processo e nenhum modelo ambiental do mundo conseguiu prever que isso ia ocorrer – é muito grave.”
Outro dado surpreendente do relatório Brasil em Transformação: O Impacto da Crise Climática se refere ao investimento em prevenção. Apesar do aumento significativo nos registros de desastres ao longo dos anos, houve uma redução nos recursos gastos com a gestão de riscos e prevenção de desastres entre 2012 e 2023.
Em 2023, as ações de prevenção de desastres custaram ao Brasil R$ 90 milhões (0,0009% do PIB). As ações emergenciais de desastres, R$1,24 bilhões (0,01% do PIB). O docente explica que, em 2025, já houve recordes de temperatura novamente, de degelo na Antártica e de aquecimento do oceano. “Cada vez que piora a situação de temperatura do ar e do oceano, o número de desastres no continente é maior, seja de seca, erosão, chuvas intensas”, aponta.
A única possibilidade de mudar esse cenário é a transição energética, segundo o professor. No entanto, em 2023, houve um investimento de R$18,07 bilhões (0,16% do PIB) em fontes renováveis, quase oito vezes menor que o valor injetado em combustíveis fósseis (R$81,74 bilhões ou 0,75% do PIB).
“A forma como interagimos com o meio ambiente deve ser mudada, para que a gente possa preservar o que ainda aqui está, restaurar o que foi destruído e alterar o nosso modelo de consumo e produção, de forma a impactar menos nossa saúde física e emocional”, finaliza.